DRM, (digital rights management), é um assunto meio chato que deveria interessar só a técnicos e advogados e não a fans de jogos para PC. Só que ele acaba afetando tanto a vida dos jogadores e pode gerar tanto problema no futuro, que é bom entender como isso acontece. Jogos recentes como Bioshock, Mass Effect e Spore (e provavelmente o Red alert 3 também) incluem sistemas de proteção que limitam tanto o uso do jogo e do próprio PC que precisam ser considerados antes da compra. Do contrário a diversão para muitos pode acabar em uma grande frustração.
Todos já conhecem os sistemas de proteção que verificam o CD/DVD no drive. Este sistema por si só é irritante e deveria ser abolido em jogos de PC, já que em quase todos os jogos todo o conteúdo é instalado no HD. O CD serve apenas como uma espécie de chave para provar que o usuário adquiriu o jogo. Não é nem preciso dizer que isso é largamente quebrado, embora seja ilegal. Mas eles foram além!
Alguns jogos requerem agora a ativação. Algo parecido com a ativação do Windows. O instalador do jogo conecta à Internet para verificar a validade da cópia. No jogo Bioshock foi criada uma restrição a mais. Além de colocar o CD e ativar, existe um limite de ativações, 3 ou 5 (recentemente foi eliminado este limite, mais de um ano e meio depois do lançamento do jogo, devido às criticas gerais). Para esclarecer então, temos 4 sistemas que podem ser usados separadamente ou em conjunto.
1) verificação do CD, o tradicional. O inconveniente é ter que procurar o CD, abrir o divre, colocar o CD, etc, além de ficar expondo à midia de instalação a riscos e acidentes.
2) Ativação, no ato da instalação. Muitos já reclamam disso porque obriga a possuir conexão com Internet
3) Re-ativação periódica. Sim é estranho. O jogo “liga pra casa” de tempos em tempos para verificar a validade da instalação. De novo, requer Internet, além de potencial invasão de privacidade. Se eles sabem o seu IP, associado ao seu serial, sabem muito. Além do conteúdo dos pacotes enviados. Isso é grave, mas pode passar despercebido a muitos usuários não técnicos.
4) Limitação do número de instalações, associado à ativação (2). É a limitação mais grave e visível. Em caso de upgrade de hardware OU reinstalação de sistema operacional OU reinstalação em uma máquina nova, uma ativação é “queimada”. Nos jogos da EA o número é 3. Na prática, limita o tempo de utilização do jogo. Em um mundo que estimula o upgrade de PC, ainda mais para jogos, quanto tempo se fica em média com o PC inalterado? E se o usuário, além disso, gostar ainda mais de melhorar o PC? O usuário casual, que não liga muito para a máquina e abandona o jogo depoisde uns 3 meses, talvez não perceba. Os mais “hardcores” vão acabar percebendo, da pior forma.
Já tive uma experiência pessoal com isso que ilustra o que pode ocorrer. Depois de 3 anos seguidos comprando legalmente o Norton Antivirus, adquiri uma cópia que vinha com ativação. acho que foi em 2002 ou 2004. Esta licença tinha validade de um ano. Mas como altero e reinstaldo meu PC com frequência, em pouco mais de 6 meses já tinha feito 3 instalações (usando um único PC de cada vez!). Na quarta a instalação foi negada. Fiquei o resto do período sem ter nenhuma instalação funcionando. Em nenhum lugar da caixa (nem dos manuais) era dito explicitamente que seriam só 3 instalações. Me senti lesado, e não entrei na justiça apenas pelo valor da cópia versus custo do processo. Minha reação foi não comprar mais nenhum um produto deles. Esta situação voltou à minha mente quando li sobre o Bioshock.
Quando li que o Red alert 3, a ser lançado ainda, provavelmente irá incluir este sistema DRM que limita instalações, confesso que me desanimei do jogo. Não se pode dizer com certeza se a versão final terá, mas dado que a versão beta já tem, e que os últimos maiores titulos da EA lançados também (spore, Mass effect), diria que é quase certo, infelizmente. Com a frequência que mexo com meus PCs, seja upgrade de hardware, reinstalação do sistema operacional ou compra de nova máquina, digamos a cada 6 meses, eu poderia jogar por um ano e meio, sendo otimista. Se além disso tiver problemas do hardware ou de virus, menos ainda. Depois disso teria que comprar outra cópia do jogo. E não é só isso. Tem também o sentimento de falta de liberdade. Não posso mexer no MEU PC senão eu perco direito de rodar A MINHA CÓPIA do jogo.
Sempre achei meio absurda até a inclusão de contratos de licença nos jogos pra PC. Era pra ser apenas uma diversão, e agora supostamente devo ler e estar ciente de um CONTRATO? Isso inclusive isso não costuma vir em jogos de console. Jogar em PC as vezes é uma prova de paciência! Passa a ser muito mais interessante e divertido jogar em console, cujos jogos não vem com um contrato de licença para ler, nem número serial para digitar, e nem tem ativação e limitação de instalações. E se não for pra jogar online, nem Internet eu preciso. Coloquem teclado e mouse em consoles (para os jogos de tiro e RTS), e o PC como plataforma de jogos terá muito poucas vantagens práticas para quem quer apenas jogar. Tirando os piratas, que copiam ou compram ilegalmente e não tem nenhum dos inconvenientes citados, os jogadores para PC estão sendo tão penalizados que não vejo mais o PC como uma escolha razoável para jogos diante de um console. Quero comprar o jogo legalmente, com nota fiscal e tudo, mas sem ser penalizado e sofrer eternamente por isso. Se todos estes sistemas de DRM são uma estratégia para matar o PC como plataforma para jogos, vão acabar conseguindo.
Para balancear todos estes inconvenientes, mantendo o DRM rigoroso e limitante, o fabricante do jogo poderia fazer duas coisas. Uma seria informar mais explicitamente as regras: são só 3 ativações, nas seguintes condições, e etc. Compraria quem quisesse. Acho que pelo menos hoje em dia, isto já afastaria muita gente, a começar justamente pelos maiores fans dos jogos, aqueles que esperam jogar pra sempre os seus títulos queridos. A segunda medida seria reduzir drásticamente o preço. Se de fato limitaram o uso que o comprador legitimo pode fazer do produto, nada mais justo que reduzir proporcionalmente o preço. Se antes custava R$ 100,00 para jogar pra sempre e ter acesso total sem Internet, agora deveria custar uns R$ 15,00, já que espero só conseguir jogar por um ano antes de ter que comprar nova cópia, e vou ainda ter que manter a Internet.
Devo dizer que, pessoalmente, nenhumas destas duas medidas, embora até justas, me agradaria o suficiente. Isto porque quando compro qualquer produto de conteúdo, seja livro, CD, DVD, jogo de computador, arquivo digital de música ou filme, etc., espero poder guardá-lo comigo e usar indefinidamente, sem limitações técnicas impostas arbitrariamente. Um livro posso ler o quanto quiser. Inclusive emprestar. Um CD ou DVD idem. Para estes dois últimos pode-se imaginar no futuro um dia em que tocadores para eles não existirão mais, ou não serão comuns. Isso aconteceu com o vinil, as fitas K7 e está acontecendo com o VHS. Mas pelo menos tenho a oportunidade de tentar manter por conta própria um aparelho em condições para executar estas mídias (da mesma forma que tenho um tocador de LP de vinil ainda funcionando).
O fato é que a proteção de direitos autorais em jogos para PC sempre foi e continua muito mal resolvida. Isso põe em risco a indústria e a liberdade e direitos dos consumidores ao mesmo tempo. A facilidade de cópia dos meios digitais, ainda mais depois da Internet, é muito grande. Com isso muitas vendas deixam de ser feitas pelos donos legítimos dos direitos do jogo, aqueles que investiram na produção. Dado que o sistema é capitalista, significa menos lucros, menos empresas, menos empregos na área, etc. De outro lado quase todos os sistemas de DRM que impediriam esta cópia ilegal são tão inconvenientes que estimulam parte das pessoas a não comprar nada também e outra parte, com menos escrúpulos éticos, a partir para a pirataria.
A solução para este impasse pode vir de outro conceito. Livros e discos de vinil sempre puderam (tecnicamente falando, não legalmente) ser copiados. A diferença é que, neste caso, o que se obtém é sempre muito inferior, além de ter um custo relativamente alto. Por exemplo, posso copiar um livro na xerox, só que além de obter uma pilha desajeitada e pesada de papel, que mesmo depois de encadernada em espiral fica grande, a qualidadde de impressão é muito pior. E em muitos casos o custo é quase igual ao do livro original. Ou seja, a não ser quando é impossivel se comprar o livro, e ele é muito necessário (faculdade, tese de mestrado, etc.) não compensa copiar. E mais, quem realmente gosta de livro quer ter o original, um livro mesmo, não cópias xerox com espiral! Acho que o jogo funciona da mesma forma. Quando a relação custo/benefício do produto vendido legitimamente for superior ao de uma cópia, a pirataria estará sob controle. Que benefícios? Manuais, midia de qualidade superior, acesso aos servidores online, a caixa colecionável, assistência técnica, etc. Muitos fornecedores de jogos sequer tem um número 0800 para atender aos clientes. É um insulto esperar que o cliente ligue por DDD a outro estado, ao custo que é, para resolver alguma coisa!
Este último sistema antipirataria criado pela indústria de jogos, o da ativação + limitação de instalações, é mais uma tentativa para tentar refrear a evasão de vendas, sem querer focar na questão do custo/benefício. A esta altura os produtores de jogos buscam também uma alternativa à verificação do CD/DVD no drive. Isto porque o mundo está caminhando para transmissão de conteúdo prioritáriamente pela Internet, e dentro de algum tempo midias óticas (incluindo o tão sonhado BlueRay) serão algo obsoleto e inconveniente para a maioria das situações. Neste caso a Valve já está lá, com o Steam, e já descobriu um caminho viável. Temos também a Diret2Dirive, que vende de forma parecida. Mas o Steam é superior, pois independe de ativações. O único inconveniente do Steam é depender da Internet. Mas dependemos também da rede elétrica para ligar o PC. Conexão Internet já é um pré requisito básico, assim como água, luz, gás, telefone … logo, não vejo limitação, a não ser por romper o paradigma da propriedade da midia e direito de execução ilimitado. Depende-se de um serviço externo (servidores na Internet) para poder executar o jogo. Em outras palavras, se o serviço acaba, o jogo não pode mais ser executado. O Company Of Heores requer login até para jogar o single player. Logo, em caso de falta do servidor, sem acesso ao jogo. Outros jogos do Steam rodam em modo offline, mas não poderiam mais ser instalados da forma normal sem o servidor do Steam (em ambos os casos teriam que ser crackeados para continuar funcionando).
A proteção de cópia por ativação + limitação de instalações é ruim pelos dois lados: aborrece e afasta o comprador legitimo, que deixa de acreditar na boa fé das empresas produtoras, ao mesmo tempo em que não impede a pirataria, ou pior, a estimula. Em Bioshock a limitação de instalações acabou sendo retirada, pelo que li de várias fontes. Talvez agora eu compre Bioshock, o que acabei não fazendo porque li sobre os problemas em uma revista americana, a PC Gamer. Os outros títulos, muitos deles muito bons, vão deixar muita gente frustrada. O pior é que quem mais vai se frustrar serão os que mais adoram os jogos, e não o jogador casual, que abandona o jogo depois de algumas semanas. E muito menos o pirata, que continuará fazendo o que sempre fez. Em meio a estes experimentos com DRM, as cobaias são os fans de jogos para PC.
Quando está custando mesmo um PS3?